da cidade trens lotados asfixia do que é urbano o choro
entrava pela janela do quarto no fim de dois dias podia
ver o cortejo cruzando as ruas depois daquele palácio
começa a areia é preciso cruzar o deserto viajar entre
poços cavados na terra seca o deserto está crescendo e
então são apenas dunas ventania de grãos poucos oásis
coqueiro solitário sombra perfeita camelos e mercadores os
traços fundos de seus rostos cavados pelo sol cabanas os
escultores de mármore e a música que vem de longe quase
inaudível caminhemos até lá as miragens são sempre belas é
preciso ouvir de perto a cobra escreve seu rastro na areia
o pássaro é uma caligrafia no ar a vaca magrinha puxando
um carro pesado as caixas de abelha lado a lado a gaiola
cheia de galinhas as estradas sinuosas que nos levam à
cidade safira búfalos negros curvos e mansos a flauta que
encanta a serpente os negócios as trocas as vendas e
muitas barganhas cestos cheios de grãos ervas panos
flutuantes de todas as cores os tecidos mais cobiçados do
mundo todos os que cruzaram o mundo antes dele por um
punhado daquelas raridades todos os espectros da cultura
humana ao longo dos verdes jardins o dia límpido o vale
campos de arroz e cereja plantação de papoulas madrugadas
seculares nem lembrava mais quem era antes de chegar ali
pedro quem o céu recosta-se no espaço e tudo continua
árvores gigantescas os delicadíssimos dedos da dançarina
pingentes bolas feltros vermelhos pulseiras filigranas de
marfim e ar muita fumaça aromas de fruta flor óleo
fervente o vapor de pedra esculpida a poeira que jaz em
tudo os mortos os monges o chá o etéreo a sabedoria de
outros tempos os sons e as línguas que nunca se imaginou
escutar mas compreende-se sempre o cego vai sendo levado
pelo menino sorri de olhos fechados vê constantemente o
profeta entre arabescos de mil voltas um verso antigo uma
palavra imortal sozinha então deus ajeita-se na cadeira
busca posição mais confortável e as estrelas são diluídas
numa nova luz pedro ícaro gasta-se todo em lembranças e
tão logo aquilo tudo se espalhou pela sua vista como o
expandir de uma expiração foi recolhido novamente lagos
dobrando-se sobre plumas todas as cores dos mercados
evaporando como incensos pavões adentrando as pratarias as
Huahuahhhuhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu
PEDRO ICARO NO
ORIENTE
Impressionante como os idiotas viajam.
Agora o que tem de idiota que não viaja
É mais impressionante ainda.
— Luiz Olavo Fontes
pedro ícaro abriu os olhos e viu o oriente a cadeia de
montanhas mais arrebatadora que nem em seus sonhos
imaginou encontrar neve derretendo-se em lagos e rios
sagrados ao redor distribuía-se todo o imaginável enfeites
temperos roupas caixas joias tapetes bonecos as pessoas as
pessoas foram surgindo primeiro aos poucos depois mais e
mais às dezenas aos milhares ao bilhão muito tudo ali era
muito a loucura poderia ser isso uma senhora oferece balas
coloridas um cachorro relaxa à sombra as mulheres adornamse
com flores o quarto é o lago de águas claras e algas no
fundo o quarto é o lago e o sol o vaivém da marola pelas
ruínas do forte crescem plantas por entre as pedras junto
à encosta há uma trilha o sol poente vermelho encosta no
espelho d’água duplica-se o casco do barco de pesca
escorrega facilmente pela areia empurrado pelo grupo de
homens a vendedora de frutas passa com sua criança um
velho de poucos panos e sandálias toca uma flauta ao lado
do boi com os chifres pintados mulheres tiram água de um
poço divina pobreza antiga a cada nova praia uma formação
rochosa particular pedras se misturando com o limo erosão
bater das ondas tudo o que ficou para trás ao partir
milhares de anos de decomposição elementos misturados
pessoas virando coisas virando bichos chovendo de volta ao
mar corpo mente e alma ser o vegetal ser o tigre e suas
listras estudar a partitura homens altivos nitidamente
limpos frescos do banho matinal serenos graves como
estátuas ele percorria a balbúrdia das praças divertia-se
com o jeito desajeitado do elefante ao caminhar pelas ruas
pessoas recolheram-se nas montanhas em suas casas orações
nos diversos templos os finos véus nuvens desenroladas
brumas tudo desvaneceu-se inalado evaporou por entre odres
de leite sonhos e silêncio mais nada