JOÃO CORAÇÃO
A
Marcelinha era da turma dos
grandes e eu da turma dos pequenos.
E grande andava com
grande, pequeno com pequeno.
Se a D. Lindalva pegasse a gente
brincando com a turma dos grandes,
era direto pra sala do castigo.
É errado. E mesmo fora da escola,
no futebol, por exemplo, não podia
jogar com a turma dos grandes. Só encarnando
o café-com-leite. Aceitando gol
que não vale.
E não falava pra Marcelinha
que ela era minha namorada. Não. Namorava,
mas eu era café-com-leite. Não
podia levá-la à minha casa pra assistir
Pica-Pau, escalar as grades da Igreja
Velha, fazer bolinha de papel com saliva
e jogar no teto.
Eu tinha alguém, mas tava
sempre sozinho.
E por mais longe que ela andasse,
eu nunca parava de pensar.
Eu não tinha ninguém, mas eu
nunca tava sozinho.
Não fazia sentido.
Era uma merda. Não sabia como
resolver.
Mas o João Coração ia me ajudar.
O João Coração me ajudava direto.
Maior que os grandes. Quase homem,
sabia dirigir. Gostava de ler HQ e revistas
de meditação. No churrasco, só comia
coração de frango. Vizinho da esquina.
Me ensinou uns golpes mortais da
faixa amarela de Kung Fu, me deu um
poster do Bruce Lee. E sempre me explicava
o subtexto dos filmes de John
Carpenter. João Coração tinha uns dentes
bonitos. E era assim que a mãe falava:
Onde cê vai?, Atrás do João Coração,
O moço dos dentes bonitos?.
Eu confiava no João Coração.
Palavra dele era lei.
João Coração não tava na oficina
pintando carros. Nem jogando bola
no campo. Nem enfurnando na biblioteca.
Na mexeriqueira do lote do Zé do
Irmão, era lá que João Coração ficava.
A mexeriqueira tava empelotada
naquele ano. E o João Coração pendurado
lá em cima. Pernas enroscadas
nos galhos.
Pega. Ia jogando as mexericas
pra baixo. Eu ia pegando, colocando no
saco. E contando.
Contei como essa coisa de
grandes e pequenos não fazia sentido. E
ficar vendo a Marcelinha só longe. Só
olhando. Expliquei que a Marcelinha era
um filminho repetindo na minha cabeça.
Um filminho que nunca ia embora. Eu
nunca tava com ela, mas eu nunca tava
sozinho.
É foda. Do alto, João Coração
cuspia sementes. Falou que eu tava na
razão. E devia sossegar. E não podia, de
jeito nenhum, achar que só aquilo resolvia.
Não é tudo. Enfiou outro gomo
na boca e jogou outra mexerica. E o
João era calmo. Via coisa que eu não
via.
Pra tudo, só tem um jeito. Falar
a verdade, ele me disse.
E toma tento. Vai sem medo.
UM TROCO – janeiro 2012 Página 14
via de perto. Um rosto redondo e olhos
argutos. Ele parecia, sim, e era, um bom
moço, que ainda gesticulava, que ainda
falava.
Ele estranhamente não parecia à
vontade. A todo instante procurava um
novo modo de acomodar-se à poltrona.
No silêncio do interior, ela agora percebia
melhor o que ele falava, e era sobre
os vizinhos. Eles reclamaram de alguma
coisa, algum odor odioso e fétido. Havia
sido ontem à noite que eles telefonaram
e o chefe da polícia prometeu mandar
alguém verificar. Agora sim, ela entendia
a presença do moço ali. Ele viera
saber se uma doce senhora saberia dizer
se aquele cheiro a incomodava e se sabia
dizer de onde ele poderia ter vindo. Ela
balança a cabeça negativamente, mais
pelo peso da cabeça do que pela negativa
em si. Mas ela negava, sim. Afinal,
não sentia cheiro algum. O moço concordou
e deixou os olhos navegarem
pelos aposentos e olhava as fotos antigas
penduradas à parede, amareladas.
Em uma delas, a maior, havia quatro
pessoas. Duas moças, uma mulher e um
homem. O homem tinha ralos cabelos e
uma barba negra. Os olhos fitavam um
horizonte inexistente. As duas moças
eram quase idênticas, a única diferença
perceptível era uma pinta em cima da
sobrancelha esquerda. E a mulher, cinquenta
e dois anos depois daquela foto,
estava sentada à cadeira que balançava
silenciosamente.
Ela nota que ele se interessara
pela foto e conta-lhe sua história. De
fato, aquela era sua família. Fora, seria
o termo mais definitivo. Aquela seria a
última foto das outras três pessoas. A
senhora maneou a cabeça e começou a
história. Ela contou que, em um certo
dia, decidiu dar um passeio pela vizinhança
com uma amiga, já no crepúsculo.
Ela não planejara se demorar, nem
pensar. Em algum momento na próxima
hora o esposo voltaria do trabalho e ela
queria estar em casa para recebê-lo. As
filhas estavam lendo, cada uma seu livro,
quando as deixara para o passeio.
Ela chamou-as para acompanhá-la, mas
não quiseram. Não insistiu e foi ter com
sua amiga, que morava duas casas depois,
para a direita. O trajeto findou-se
em trinta minutos e o crepúsculo da
tarde já havia passado. Deixou a companheira
de passeios em casa e rumou
para sua própria residência. Notou algo
diferente, ao perceber a porta de entrada
centímetros aberta. Ela diz que pressentiu
algo ruim naquilo. E não estava
errada. Os livros que as meninas liam,
quando ela os viu depois de voltar, estava
esparramados, abertos e solitários. A
que possuía a pinta estava de bruços e
um lago de sangue escuro circundava a
cabeça e os cabelos emaranhados no
carpete. A senhora, naquele dia e momento,
desabou no chão a gritar, chorar
e chamar seu nome, mas a filha não
existia mais. No desespero selvagem,
lembrou-se da outra filha, que ali não
estava. Correu pelos cômodos da casa e
não a encontrou. Desabou no chão mais
uma vez, abraçando à filha e sujando-se
de sangue. Mais gritos e lágrimas. Alguns
vizinhos escutaram os gritos e vieram
saber o que se passava. Alguns, de
estômago mais fraco vomitaram, ela se
lembrava. Outros tentaram removê-la
daquele abraço necrófilo e trazê-la à
realidade. Não conseguiram de imediato,
mas, algum tempo depois, ela cedeu e a
filha foi devidamente velada e sepultada
no dia seguinte. A foto, aquela mesma
que estampava a parede da sala, havia
sido tirada no dia anterior ao daquele
acontecimento macabro. Seu marido
nunca foi encontrado. Assim como a
UM TROCO – janeiro 2012 Página 9
UM TROCO – janeiro 2012 Página 13
EDITORIAL
UM TROCO – janeiro 2012 Página 1
A Marcelinha apontava com
umas coisas coloridas grudadas no cabelo
preso. Olhos pretinhos arregalados.
Arrastando as sandálias de plástico verde-limão.
Ela chegava no portão, minha
vista escurecia. Piso escorrendo debaixo
do pé. Encostado perto da diretoria,
encolhido com a minha merendeira do
Fofão. Entre as pernas. Eu só contemplava.
Ela sorria e balançava a mão,
bem depressa. Eu zonzeava o rosto.
Tremia. É foda.
No dia que resolvi falar com
ela, fiquei ainda mais zonzo. Bobão. E
foi complicado me levantar e cercá-la.
Nunca é fácil fazer o certo. As pernas
cravaram no chão. Coluna empedrada, o
queixo caiu no peito. Levantei arrastando
os pés, meio coxo. Como se empurrasse
uma pedra, num trote duro. Parei
na frente dela, mas a voz não saiu. Ela
me encarava. Olhos grandes, engolindo o
cisquinho de coragem que juntei. E o-
lhando. Enterrava minha voz no estômago.
Queimando. Frio.
“O que foi?”, disse.
Só lembro do barulho das sandálias
verde limão se afastando.
Queda de energia que apaga a
televisão na melhor parte do filme. Não
lembro. Algum instinto deve de ter soterrado
essa memória na última gaveta
da cabeça. E fique por lá. Empilhada
com a lembrança do gol-contra no meu
primeiro jogo de futebol. Da vez que
deixei o pote de mel cair no meio rua. E
da vez que fui comprar pão com a fantasia
do He-Man, feita de resto de calça
jeans. E todo mundo riu.
Relatei o ocorrido ao João, a
gente enchendo a cara de mexerica na
casa dele. Cuspiu umas sementes e disse:
assimetria natural da existência. É isso.
Além dessa minha inclinação astrológica
viciosa: Leão com ascendente em Sagitário.
Bizarria. João disse: aceita i-
gual é. A vida não vale o gasto.
João só dizia trem ajeitado.
Enfiei um gomo na boca. E disse
que ia tentar.
A gente era tudo barbado quando
a mãe do João Coração morreu. A
mãe do João tava boa. Foi buscar jabuticaba,
lá na horta do Tião Lorival, e
sofreu um derrame. Estourou a cabeça
num canto de pedra. Era sábado de Carnaval.
Quase ninguém. João Coração
conhecia muita gente. Na hora do aperto,
sumiu tudo.
A D. Suzana, tia do João, acabou
ajeitando os trem. O João tava sem
condição. Tava nada com nada. Subiu o
morro do cemitério arrastado. O sino.
Começou a gritar na hora que foram
lacrar o caixão.
Tranca junto.
Fecha. E eu fiquei de lado, o-
lhando. E nada que ajudasse o coitado
do João.
Depois, desandou. Começaram a
falar que o João tinha largado de mão.
Não pintava mais carro. E muito menos
jogar bola. Passava o dia inteiro em
casa, vendo filmes de Kung Fu na televisãozinha
preto e branco. E invernado
na cachaça.
UM TROCO – janeiro 2012 Página 15
D
urante os últimos
três meses recebemos
uma série de
produções literárias de todo
o Brasil. Algumas vocês tiveram
contato ao comprarem
ou baixarem nossas edições
de Outubro, Novembro
ou Dezembro. No entanto,
certos textos que não entraram
nas edições mereciam,
por algum motivo, serem lidos
por mais pessoas, ganharem
mais vida pela vida de
seus leitores. Foi aí que tivemos
a ideia de criar a Um
Troco, uma revista virtual
contendo tudo (de bom) que
não foi pra Um Conto – Revista
de Literatura, a impressa.
Mantendo, dessa
forma, o hibridismo no qual
a produção e distribuição da
literatura atual vem se baseando,
entre o meio virtual e
o meio “real”, físico, o da
impressão. Esperamos, caro
leitor, que seu troco seja suficiente.
E até breve, com a
edição número dois. Boa leitura!
Índice
BREVE TIPOLOGIA PARA UM ROMAN-
CE NATURALISTA ..............................página 4
IF I LAY HERE .....................................página 6
A FOTOGRAFIA ...…………………….página 8
O SILÊNCIO DA CHUVA …….…....página 12
JOÃO CORAÇÃO ................................página 14
MAMÃE, CORAGEM .......................página 18
UM TROCO – janeiro 2012 Página 2
MAMÃE, CORAGEM
F
az três dias recebi uma carta.
Esteve doente, não se agüentava
mais. Reclamava da falta que eu
fazia, da saudade que eu deixei e das
respostas que eu nunca dei. Morria, era
certo. O médico deu uma semana. Não,
dessa vez não era drama, nem capricho,
era verdade. Me enviou um laudo no
envelope, queria me acordar.
Mãe,
Me espera que eu to voltando. As calças
vão largas, precisando de um aperto,
daqueles que só a senhora sabe dar. As
pernas vão finas, carecendo daquele
feijão na panela, que eu raspava com a
ponta do dedo quando de moleque brincava
na cozinha. Na cara tem uma barba
grande, mas não é pra assustar. O tempo
anda curto, corrido que só vendo, e me
falta tempo pra fazer. Mas acredite,
mãezinha, as modas aqui vão boas, e a
barba vem me trazendo jeito de bacana.
Avisa pro tio que é pra deixar abiu no
pé. Sei que tá na época e quero uns pra
colar a boca e depois ficar reclamando
do lado da senhora, até que você me
passe a manteiga e eu sorria amarelo,
gostoso, e você aperte minha barriga e
mande eu parar de ser chato. To levando
um lençol daqui. Não sei se vai servir
na cama, por isso, pega o meu no meu
quarto e põe pra tomar ar no quintal.
Prepara aquela mesa grande na varanda
e deixa a rede quieta lá. Vou levando
um vinho também, de uva sem caroço.
Não sei se é diferente, mas o moço aqui
da venda diz que é fino.
não consigo mais olhar na janela. As
pessoas não se cumprimentam, nem a
cor dos olhos elas conhecem. O céu anda
preto faz umas semanas e nem chuva
vem pra molhar essa tristeza. Meu pulmão
tá indo ruim, mas não é cigarro
não, que eu já parei faz um tempo. Maria
tá dizendo que é coisa de fumaça de
carro. Maria fica, mãe, não me quer do
lado mais. Vou levando um peito marcado,
dentro e fora. Tem umas paixões
que eu deixei aí em casa, outras vou
levando anotadas no caderno. As unhas
do meu pé vão grandes, mas ninguém
aqui repara – não se tira o sapato, é
feio. Aí vou andar descalço, e depois
lavar o pé no tanque antes de entrar em
casa.
Pro Toninho vou levando um peão. O
vô faz melhor, mas esse daqui tem umas
luzes que rodam quando a gente brinca.
Andei brincando um pouco com ele, é
certo. Me fazia acreditar, mãe, acreditar
nessas coisas que eu andei ouvindo, sobre
tudo clarear e o mundo ficar mais
bonito. A cidade grande não é igual na
novela. Diz pro pai pra tomar cuidado,
muita gente vai mal nessas bandas. A
verdade, mãe, é que já não me vejo com
muito tempo. Andei tomando umas cachaças,
mas não é muita coisa. Tenho
andando meio mal das pernas, das costas.
Prepara um travesseiro a mais na
sua cama, que eu vou me deitar com
você. Tenho uns abraços pra te dar.
Se o ônibus atrasar, não preocupa, eu
chego.
A verdade mainha, é que as coisas por
aqui andaram meio apertadas. Às vezes
batem na porta e eu finjo não estar.
Tem um medo grande na cidade e eu
UM TROCO – janeiro 2012 Página 18
A FOTOGRAFIA
O
uve o barulho do lado de fora, e
desvia a atenção do bordado que
já estava fazendo havia algumas
horas. As mãos davam voltas em torno
de si mesmas. Uma borboleta clara, de
uma cor azul vibrante nascia do controverso
cruzamento de fios de seda na
toalha branca e virgem. Nada mais era
do que um presente à filha, sem motivo,
apenas uma lembrança inofensiva pelo
seu aniversário. Talvez ela poderia usálo
para secar os pratos de porcelana
depois de lavados. Imaginou se ela gostaria
do presente quando o ganhasse e o
visse. Mas, por enquanto, havia apenas o
barulho de passos distantes sobre o alpendre
amadeirado. Passos fortes e resolutos.
Passos que se silenciam, que
cedem lugar aos punhos. Que batem na
porta.
A cadeira de balanço se mantém
indo e voltando, na inércia do balançar,
trazendo a sonolência recorrente; as
batidas na porta cessam e voltam, cessam
outra vez. Hoje em dia já não há o
respeito para com os idosos, já não nos
deixam em paz, pensa ela. Com idade
avançada, penoso é levantar-se e receber
convidados, mesmo quando esperava-os.
Mesmo naquele momento, no limiar da
tarde. As batidas na porta não foram
esperadas, ela se levanta, deposita o
inacabado bordado e os óculos sobre o
tampo do piano. Devagar, a mão recortadas
de veias roxas, toca a maçaneta.
Gira-a. Puxa.
Um belo uniforme é o dono dos
punhos. Cor azul-céu-limpo, o distintivo
reluzente. Se ela esperava alguém, de
certo não seria um homem da guarda.
Pensa e olha-o com olhos bondosos após
o rigoroso ritual de cumprimento a uma
dama, e o faz um convite para o chá,
que ele declina, e ri. Faz tempo, meses,
anos, que ela não ouve um riso ou mesmo
fita um sorriso. Um sorriso verdadeiro
e humano. Na casa havia fotografias;
alguns fotografados mostram os
dentes amarelos num desbotado sorriso.
Mas não é a mesma coisa, não é? Um
sorriso mortificado e preto-e-branco é
como uma mentira mal-contada.
O moço falava coisas desconexas,
ali de pé. Falava sobre um telefonema?
O que era um telefonema, por
Deus? Será uma nova peste que veio nos
dizimar? Deus a mandara para assolar
nossos pecados infames? Enquanto falava,
o moço gesticulava. O calor era
estranho naquele período e talvez por
isso suava de escorrer pela testa e pescoço.
À medida que falava, ia ficando
mais sisudo. E, de nada adiantava, ela
não escutava muito bem havia uns bons
40 anos, ainda mais do lado de fora. E
agora, sua frágeis pernas centenárias
clamavam por descanso. De pé não é a
melhor posição para se conversar, seu
moço. Ela o convida para entrar, e dessa
vez aceita, desejando sentar-se numa
poltrona grotesca que vê no pé da escada
que dava para o segundo andar. Ela
diz que a sala de banho fica depois do
corredor, oposta à cozinha, e que poderia
usar se quisesse. Mas ele agradece e
acomoda-se na poltrona. Ela senta-se de
volta na cadeira que balança, põe os
óculos e observa o moço de azul. Azul
da cor da borboleta. E sorri.
Seus olhos míopes a impediram
de ver o que agora, com as lentes grossas
dos óculos, notava: ele possuía um
bigode fino. Era sua opinião que todos
os bons moços deveriam ter bigodes, e,
de preferência, bem-cuidados. E aquele
ali tinha feições agradáveis, agora que as
UM TROCO – janeiro 2012 Página 8
UM TROCO – janeiro 2012 Página 3
outra filha também não. Isso ela contara
ao moço azul-borboleta.
O policial ouviu toda a história
com atenção, e agora se levanta e agradece
a compreensão e a ajuda. Ele tinha
ficado chocado com a história e preferiu
não entrar em detalhes, para não despertar
mais lembranças desagradáveis
na pobre e bondosa senhora. Ela pergunta
se, antes de ir, aceita um chá. Estava
quentinho ainda. Mas ele, mais uma vez,
rejeita com toda a educação de um bom
guarda municipal. Ele se despede e as
botas fazem o chão ressoar com os passos,
do mesmo jeito que fizera ao chegar.
Ela fecha a porta e retoma a borboleta
que deixaram sem parte da asinha
direita.
Enquanto ela borda, a memória
fraca percorre a história que contou
para o moço. Não gostava de mentir,
mas não havia outro modo. Ela sentiu
remorso por não contar-lhe toda a história
daquele dia, daquela foto. Ela gostou
do moço. Não mentiria para ele. Em
outras ocasiões. E na verdade, a outra
filha, foi encontrada.
Cinco dias depois do enterro da
primeiro encontrada, havia um cômodo
que ela esquecera de olhar. Não sabia
bem o porquê de tê-lo esquecido, mas
isso já não importava, depois de todos
esses anos. O cômodo ficava ali, bem
abaixo do carpete e da cadeira de balanço
que fazia o chão ranger os dentes de
madeira. O porão havia sido esquecido,
e por cinco dias, a moça ficou esquecida
lá, apodrecendo no silêncio e com os
ratos. Afastou a cadeira, e com um lampião
desceu as escadas, tremendo e pedindo
a Deus que não a encontrasse. Ela
encontrou-a. A sua pele tinha uma tonalidade
cinza-escura característica do post
morten, assim com o odor seco de carne
putrefata. Com as vestes rasgadas, as
pernas abertas num ângulo impossível e
as partes íntimas dilaceradas, a moça
parecia ter sido violentada até a morte,
ali mesmo, no chão de terra socada. Em
silêncio, a mãe chorou e pediu clemência.
Pegou a filha e a levou para cima.
Na claridade da sala, com as janelas
fechadas, percebeu marcas roxas nos
braços e nas pernas da filha, e uns dois
dentes faltavam. Enquanto ela limpava
as roupas claras da terra que as manchava,
lágrimas de desespero e desconsolo
desciam e, geladas, tocavam o corpo
morto, que jamais as sentirão tocá-lo.
A senhora dá um impulso com
os pés para não deixar a cadeira parar e
já havia escurecido bastante quando a
borboleta ficou pronta e parecendo poder
levantar voo. A borboleta bordada.
A borboleta que nunca tivera um casulo.
Sentada e ainda revivendo as memórias
dolorosas do passado, ela se sente íntegra
e pronta. Sente até um pouquinho de
fome, afinal, desde o almoço simples,
nada sólido havia sido ingerido. Apenas
o chá. O chá que o moço dispensara.
Será que ele teria gostado da borboleta?
Combinava com ele. Uma pena que não
contei-lhe a verdade. Ela pensa no moço
por mais uns momentos, e deposita o
bordado sobre o piano, que há anos ninguém
toca.
Como vinha fazendo nos últimos
52 anos, sempre que a escuridão e as
ruas se apagavam para a noite, a velha
senhora se levanta e a cadeira dança
sozinha por uns instantes. Ela foi afastada
de seu lugar e quando o carpete foi
dobrado sobre si, revelou um alçapão
que dava acesso ao porão. Ela caminha
com calma até a cozinha como se tivesse
se esquecido de algo, e acende o lampião
à querosene. Ela volta à sala, pensando
UM TROCO – janeiro 2012 Página 10
a garrafa e serviu. Tirou dois goles e me
devolveu.
Pega. Agachei. Juntei umas pedras.
E comecei a atirar.
O Samuca me encarou. Uma risadinha
na ponta do olho.
Bebe. Eu peguei o copo e coloquei
no balcão. Perguntei se o João queria
tomar um copo com a gente. Não,
disse pra deixar pra lá.
De nada. Garrafa de pinga debaixo
do braço.
Samuca: tá carregado, hein?
João: é a vida.
Eu queria ir embora. Meu copo
tava cheio, mas não encostei. Imaginava
a cerveja escorrendo nos buracos dos
dentes de João e voltando no meu copo.
Mais um copo. João saiu.
E só lembro do barulho dos
chinelos, se arrastando pra longe.
Pedi um copo novo. Enchi. Bebi
de uma vez.
Deixei o Samuca ali. Dez contos
no balcão. E toquei no rumo de casa.
SOBRE O AUTOR:
Marcos Vinícius Almeida nasceu
em 1982, em Taboão da Serra (SP), mas
é mineiro, pois viveu desde sempre na
pequena Luminárias (MG), no Sul de
Minas Gerais. Viveu por um tempo em
São João Del-Rei (MG) e também em
Porto Alegre (RS). Publicou alguns contos
em antologias, sites e revistas como
a Cult, Suplemento Literário de Minas
Gerais, Cronópios e Germina. Foi um
dos vencedores do Prêmio UFES de
Literatura 2010 – Contos. Publicou um
romance: Inércia (Multifoco: 2009). Edita
o Selo Terceira Margem.
Site: www.quebracorpo.com.br
No entroncamento da rua das
Almas, peguei o caminho antigo. De
frente da casa do João, minha vista
embaçou. Tava tudo tramelado. E dava
pra ouvir o barulho do filme de Kung
Fu, escapando abafado da janela. Olhei
no rumo do lote, a mexeriqueira ressecada.
Ia morrer de todo jeito. Isso se já
não tivesse morrido. Só a carcaça fantasma.
Entrei no lote, olhando pros galhos.
E num fiapo de galho, bem lá no
alto, tinha um ninho de pardal.
Piando.
Piando.
UM TROCO – janeiro 2012 Página 17
za não passa de um engodo cultural que
lhe foi ensinado pelos escoteiros da ecologia.
acha que vai salvar a floresta a-
mazônica votando em candidatos do
partido verde patrocinados pela natura.
acha que é possível gostar de literatura
e não gostar de política literária. acha
bonito ter amigos artistas e contar isso
pros amigos não artistas. apóia todos os
projetos de incentivo à leitura e fruição
das artes. acha que ler nunca faz mal à
saúde. acha que é filósofo porque se
formou em filosofia. há muitos séculos
confunde inteligência com erudição. está
morto e não sabe e, talvez, nem lhe interessa
saber. interessa, certamente, aos
urubus famintos que, como eu, já não
podem apenas rir da falta (de carne e
sangue) que cobre esses velhos ossos
ilustrados pelos fins do século XXI.
BEATLES E POESIA
Larissa Andrioli, colaboradora
do mês de outubro,
acaba de lançar No silêncio
de um show de rock. Com
poemas baseados em canções
dos Beatles, o livro é
um convite à música e à
literatura. Larissa, de maneira
íntima e vertiginosa,
consegue construções capazes
de deixar arrepiado
até quem não conhece
nenhuma música dos garotos
de Liverpool (como se
isso fosse possível).
“Para quem já foi um
beatlemaníaco como eu, o
eco das canções se evola
dos textos sem que, no
entanto, carceie, limite, a
expansão criativa de Larissa.”
Gilvan P. Ribeiro
SOBRE O AUTOR:
André Monteiro nasceu em São João
Del-Rei (MG) e é pós-doutor em literatura
pela PUC-Rio e professor de Literatura
Brasileira na UFJF. Publicou A
ruptura do escorpião: Torquato Neto e o
mito da marginalidade (2000) e Ossos do
ócio (2001), ambos pela Editora Cone
Sul. Participou ainda como co-autor dos
livros Antologia Massa-Nova (Fortaleza),
Caos Portátil (México) e Livro de
Sete Faces (Juiz de Fora).
O livro pode ser adquirido
no site d’Aquela Editora,
pelo preço de R$5,00 –
com frete grátis.
ACESSE:
www.aquelaeditora.com
UM TROCO – janeiro 2012 Página 5
IF I LAY HERE
E
ra madrugada, chovia. Os dois
sozinhos no andar de cima da
casa grande, deitados no colchão
coberto por um lençol
laranja que contrastava com a cortina
verde. Ela não parava de falar e ele
ouvia admirado.
Ela levantou num pulo:
- Vamos fugir daqui!
- Fugir pra onde? Tá chovendo.
- E daí? Vamo tomar chuva.
Ele riu. Nem levou a sério. Fez um gesto
com a cabeça que dizia "volta pro
meu colo". Eram quase três da manhã e
ela não queria deitar de novo. Estava
sem sono, estava entediada; ela era assim.
Começou a trocar de roupa.
Ele, encharcado, tomou fôlego pra responder
mas não conseguiu, ela não deixou.
- A gente pode fazer o que a gente quiser,
eu e você. A gente não precisa de
mais nada nem de mais ninguém. Tá, eu
sei que você tá pensando que as coisas
não são fáceis assim e bla bla blá, mas
são!
Ela sorriu. Antes que ele pudesse articular
qualquer palavra ela correu e o beijou.
O beijo deles era único. Ele havia
sido o primeiro beijo dela. Anos depois,
já haviam se encontrado e desencontrado
inúmeras vezes - agora, ambos com
vinte e poucos anos, ele era um adulto e
ela havia se recusado a crescer; mas o
beijo ainda era igual.
- Ei. Onde você vai?
- Vou sair, vou pra europa! Vou pra rua,
ver estrelas, tomar chuva.
- Não tem estrelas quando tá chovendo...
Ela fez que não ouviu e desceu as escadas
curvas. Abriu a porta e saiu correndo
de braços abertos. Louca!
Ele foi atrás, se perguntando o tempo
todo o que raios estava fazendo ali.
Pensando na gripe que ia pegar, no
quanto aquela muher era problema, que
tinha de acordar cedo no outro dia...
Mas balançou a cabeça de novo (ele
sempre balançava a cabeça pra economizar
palavras): "já estou aqui mesmo" -
pensou. Correu até alcançá-la. Ela já
havia parado de correr. Estava só andando
e pensando e falando alto.
Ela se sentou no chão; ficou olhando pra
cima, pra ele, esperando ele se sentar
também.
Sempre que estavam juntos ele se sentia
irreconhecível; fazia coisas que ele sabia
que jamais faria normalmente - assim,
meio contrariado meio não. Parte dele
gostava. Mas uma outra parte sabia que
ela ia embora de novo. Ela sempre ia. E
essa de aproveitar o momento não era
com ele, sabe? Porque o que ele queria
mesmo é que ela ficasse pra sempre e o
tal momento não fosse tão curto. Sentou-se
ao lado dela no meio da rua, debaixo
da chuva. Estavam molhados até
os ossos.
Ela parecia pensativa.
Ele nunca soube que ela também queria
ficar pra sempre. Ela disse:
- Sabe, a gente pode ir pra onde a gente
quiser. E se a gente fosse pra Austrália?
Pra Fiji?
- Se eu deitar aqui você deita comigo? E
a gente esquece o mundo por um minuto,
e finge que só existe nós dois.
UM TROCO – janeiro 2012 Página 6
O SILÊNCIO DA CHU-
VA
Voz de chuva. Pedindo para ele pedir ao
Saulo para passar no mercado antes de
subir e trazer cookies e froot loops para
ela fazer um café da manhã especial
para a Vivianne amanhã. Recado transmitido,
o Saulo assegura o porteiro de
que volta logo, passa a mão de leve na
papada do cachorro, que se espreguiçou
e farejou antes de deitar embaixo do
banco, permitindo que o amarrem pela
coleira. Outro trovão superilumina um
pilotis todo sujo de pegadas do Argos.
Fazer este caminho àquela hora precisa
dos mesmos instintos do que andar na
chuva. Não dá para andar rápido, sob o
risco de perder o guarda-chuva emprestado
pelo porteiro, ou ir em linha reta
de um ponto a outro, sempre precisa
atravessar uma calçadinha pra chegar à
marquise, seguir até o quiosque de chaveiro,
dobrar. Precisa errância, eficazes
ou não meios de transporte, não se chega
a um ponto, só é possível voejar em
torno, imaginá-lo, dar um contorno por
cópia do que cerca na hora de imaginar,
não imaginar que uns galhos arrancados
pelo vento só revelam na última hora
que não se pode chegar mais perto, por
ali é contramão, imaginar as janelas
severas ao longo do beco que levaria ao
ponto, imaginar que o alumínio das portas
fechadas do comércio ecoe os passos
alto demais, imaginar um barulho mexendo
dentro de um contêiner de lixo,
imaginar estreito o beco, imaginar logo
um assalto, a ferrugem do canivete, o
automático e o premente da ordem, as
olhadelas para um lado e outro voejando
para o que possa vir a ser testemunha,
imaginar tudo isso que torna esse
beco, por sua vez, um ponto em torno
do qual esses achismos voejam. Imaginar
tudo isso, desistir, se afastar, ficar
parado. E, no afastamento, é longe o
mercado, devia estar caro o sucrilhos,
quem sabe, bater nele de raspão. Ou em
algo parecido. E passar do afastamento
para uma corrida como medida de segurança.
É um percurso repetido, como as
músicas daquele rádio que toca na guarita,
tudo é só minimamente diferente do
que veio antes, variações imperceptíveis,
ad nauseam, por isso a sensação de vagar
em círculo, circular. Um rosnado
baixo recebe o Saulo de volta, acompanha
ele ainda sentar no banco de antes,
por as sacolas perto dos pés e aceitar
mais uma cuia. Ainda arriscar um “onde
nós paramos?”.
SOBRE O AUTOR:
Hugo Crema (Brasília, 1990) atualmente
finaliza seu primeiro romance. Dá
pitaco em calopsitaescapista.wordpress.com.
UM TROCO – janeiro 2012 Página 12
Bati uma vez na porta. Eu abriria, mas
já não me sentia mais em casa assim.
Esperava que Amélia ou o vô viesse me
atender, mas não. Veio ela. Branca, abatida,
mal saída da cama. Não podia levantar,
mas sabia que era eu. Sorriu.
Não deixei que dissesse nada:
- Vim para morrer do seu lado.
Revista virtual “Um Troco”
Edição 01 – Janeiro de 2012
Coletânea de textos que foram
enviados por leitores da “Um
Conto” e que não foram publicados
durante o ano 2011.
Equipe “Um Conto”:
DANILO LOVISI
OTÁVIO CAMPOS
TASSIANA FRANK
SOBRE O AUTOR:
Otávio Campos é mineiro de Piacatuba
(MG). Atualmente mora em Juiz de
Fora, onde faz sua graduação em Letras
pela UFJF. É um dos editores da Um
Conto – Revista de Literatura. Escreve
esporadicamente nos blogs otaviocampos.blogspot.com,
anosdesolidao. wordpress.com
e ainda colabora com nasaladeliteratura.wordpress.com
e okannie.
blogspot.com.
Contato:
revistaumconto@gmail.com
Twitter: @Um_Conto
revistaumconto.wordpress.com
UM TROCO – janeiro 2012 Página 19
Eu tava sem jeito. Até tinha
vontade, e me sabia na obrigação.
Mas era imaginar chegando na
casa do João, arrependia.
Arrepiava.
João tonto, muxoxo. Tramelado
lá dentro.
E eu sem lugar. Tentando puxar
assunto.
E aí, João? Novidade?
Tem chupado mexerica?
Filminho bom, hein?
Faltava jeito. E coragem.
E quando eu voltava pra casa,
descia num caminho ao contrário. Cortava
pela rua da Igreja Velha, pra evitar
de passar de frente da casa. E com o
tempo, eu fui me esquecendo. Deixando
o João na dele. Me desligando. E quando
eu tinha problema, tirava palpite
com o Samuca, o cara que sentava do
meu lado na van da Faculdade.
O Samuca era companheiro de
gole. Vivia caçando bar. E teve uma
época, que cismou com o Bar do Tonhão.
Bodega. Duas mesas de sinuca.
Parede encardia e copo sujo.
Teodoro e Sampaio estourado
nas caixas. E a gente tomou duas Itaipavas.
Cadeiras de metal. Olhando as
bolas de sinuca estourar na caçapa.
Tinha dois caras esquisitos pra
caramba jogando. Um colorido. Camisa
do América, bermuda amarela, tênis
azul brilhante. E outro. Cabeludão. Camisa
social e peito pra fora. Correntinha
de Nossa Senhora. E virando pingão.
E o cabelo do cabeludão era
esquisito pra caralho. Tinha feito chapinha
no cabelo crespo. Tava ruim de não
rir.
O Samuca ficava me cutucando.
E rindo na cara do cara. Me cutucando
direto e eu tava morrendo de medo. Não
queria confusão. E o Samuca me cutucando
e mandando imaginar. O bruto do
cara, sentado na frente do espelho, passando
chapinha no cabelo. E que se o
cara não tivesse uma chapinha, pegava a
chapinha cor-de-rosa da irmã. E tinha
dois jeitos. Ou a irmã ajudava o cara a
passar. Ou ficava batendo na porta, enquanto
o cara esticava o cabelo, caprichando.
Imaginou?
Disfarça. Mas o Samuca era
nem aí. Nada com nada. Fica de boa.
Tranquilo. E desceu mais cerveja.
Eu disse que ia ao banheiro.
E que susto. Na volta, o João
Coração tava ali. Bebendo no meu copo.
Trocando prosa com o Samuca, escorado
no balcão.
Sem jeito de tudo. Bati no ombro
do João. Perguntei como é. Tava
tonto.
Falando enrolando. Veio pra
perto, me deu um abraço. Fedendo. E
quando riu, vi a falta dos dentes. Cacos.
Podres. Escuros. Os buracos.
Bafo. E o João disse que tava
tudo bem.
Pediu desculpa, tava bebendo
no meu copo. Deu mais um gole. Pegou
UM TROCO – janeiro 2012 Página 16
Ela não sabia dizer o que sentia, nunca
soube. Ainda mais ali. Tudo o que ela
enxergava naquela hora eram os olhos
dele, lindos, debaixo da franja molhada
de chuva. Ela era complicada demais,
ela tinha medos demais. Mas ela sabia.
Ela sabia que ele era o tesouro dela pra
sempre. E ela sabia que o que eles tinham
nunca iria mudar.
Então ela pediu de novo: "Anda, deita
comigo."
E se deitaram no asfalto molhado de
uma rua deserta qualquer, às três da
manhã.
Aquele momento foi eterno.
SOBRE O AUTOR:
Anna Duzzi, 24 anos com alma de
criança. Mineira, estudante de letras e
palíndroma que nunca aprendeu a andar
de bicicleta.
AS TETAS DA VACA
Outra colaboradora da
“Um Conto” que também
está lançando seu primeiro
livro pela Aquela Editora
é Anelise Freitas. Vaca
contemplativa em terreno
baldio reúne os poemas
que a autora publicou
durante um tempo em seu
blog homônimo. Anelise
traz uma poesia original,
ritmada, sensual e pop.
O poema a seguir fez parte
da nossa primeira edição e
compõe o livro :
DESCOBERTA
o vento açoitava as ruas
era o galope dos teus lábios
que vinham me beijar
explodindo
um beijo a cada verso
e desmascarando
um grito a cada sexo
então ali eu descobria
que orgasmo
é boiar
dentro do próprio
corpo
ACESSE:
www.aquelaeditora.com
UM TROCO – janeiro 2012 Página 7
se tem forças suficientes para descer e
subir aquelas escadas por mais uma vez.
E quando chega ao alçapão, abre-o. Ela
pega o tecido com a borboleta azul bordada
e se esforça para descer. Até que,
para a idade que tinha, ela aprendera a
descer aqueles degraus, em todos esses
anos. Pé após pé, ela toca com o chinelinho
o chão duro do porão e se vira
para iluminar o seu interior.
O cheiro de virar a alma do a-
vesso era o mesmo de sempre. Agora,
praticamente só o corpo com os ossos
cinza à mostra restava da moça que um
dia a velha chamara de filha. Seus restos
quase destituídos de carne jaziam placidamente
no solo, as mãos unidas no
lugar onde antes existira uma barriga, e
agora só haviam vísceras indefiníveis,
em meio à poeira e podridão. Os ratos
viviam rondando o corpo e frequentemente
o violavam. Foram eles, provavelmente
que lhe comeram os dois olhos
e um grande pedaço do nariz, ao longo
de todos aqueles anos. Mechas de cabelo
haviam-se desprendido do couro cabeludo
e, esparramadas em volta da cabeça
faziam o papel do sangue de outrora da
irmã. A defunta ali era a dona do piano,
fizera anos de aula e nunca mais poria
os dedos em quaisquer teclas que pudessem
existir. Mas, ao invés delas, aquelas
mãos de ossos quebradiços, ainda tocariam
uma possível última oferenda. A
velha agacha-se o melhor que pôde,
acariciou a cabeça podre da filha e beija-lhe
a testa. Pequenos pedaços de pele
enegrecida e poeirenta grudam-se em
seus lábios. O odor da morte não faz
mais efeito algum e ela acreditava que
ele havia deixado de existir. O que ela
não sabe é que, com o incomum calor
que vinha fazendo nos últimos dias, os
vizinhos haviam notado um cheiro mais
forte e chamaram a guarda. Com o carinho
e o cuidado que só uma mãe dispensaria
ao próprio filho, a velha separa
as mãos outrora unidas e lá deposita o
pano bordado com a bela borboleta azul.
E logo após se pergunta se a filha teria
gostado do presente de aniversário que,
com tanto amor e cuidado, ela bordou.
SOBRE O AUTOR:
Carlos Eduardo é alguém que precisa
expulsar de seu cérebro todas as idéias
malucas que lá nascem. Tem 23 anos e
mais alguns pela frente. Além de estudante,
nas horas vagas também é escritor
e músico.
UM TROCO – janeiro 2012 Página 11
BREVE TIPOLOGIA
PARA UM ROMANCE
NATURALISTA
u
sa chapéu porque deseja parecer
poeta, ou pintor francês, ou
cineasta italiano, ou porque leu,
ou nem leu, gilles deleuze e deseja ser
gilles deleuze. gosta mais de frio do que
de calor porque no frio pode se sentir
mais europeu e não apenas beber, mas,
principalmente, falar com suposta propriedade,
tal como um animal refinado,
sobre todos os vinhos do mundo. acha
bonito ser um jovem de classe média
blasé e se masturbar com rock inglês
num sábado de tarde nublada. num piscar
de olhos, acha que pode se livrar de
todos os vícios e dicotomias ocidentais
porque leu, ou nem leu, o santo nietzsche.
facilmente confunde transgressão
com grosseria. faz dança e anda por aí
como quem faz dança. beija e abraça
todo mundo como quem acredita (ou
quer parecer que acredita) que abraçar e
beijar todo mundo é ter o corpo livre.
todo mundo não, bem entendido, só os
mudernos, os que não são mudernos
finge que não vê. fala mole, tal como o
afetado do avô bicho grilo fala mole, tal
como se ninguém tivesse que pagar a
conta da sua velha boutique neo-hippie.
fala mole e arrastado tal como se o
mundo fosse mole e arrastado. goza com
o pau dos outros sem a menor cerimônia.
acredita que para ficar nu basta
tirar a roupa e que ser um artista do
corpo é produzir o escândalo do corpo e
tratar o público como um débil mental
que se choca, se chocaria, com excrementos
aureolados. nem desconfia que
qualquer picareta, alpinista social travestido
de artista, se sacraliza com a
estátua da própria pica, ao roçar, na
hora certa, curadorias de merda. acha
bonito beijar seus amigos na boca na
frente de todo mundo. certamente, não
fica à vontade em sua enorme preocupação
de ser visto como uma pessoa
super à vontade. talvez não passe de
uma vida amassada e pisada pelos padrões
escolásticos da indústria cultural
odara. talvez não saiba que existem padrões
escolásticos da indústria cultural
odara. acha que é possível viver uma
relação aberta e não ter ciúmes de nada
ou ninguém, nem sentimento de posse
sobre qualquer coisa no mundo, a não
ser, obviamente, sobre suas receitas
psiquiátricas de anti-depressivos e indutores
de sono. acha que é um antropófago
só porque mistura meleca com baião
e guitarra elétrica com arrotos de oswald
de andrade. se acha poeta porque
escreve coisas muito difíceis e enfadonhas,
como a maioria das coisas que são
vendidas por aí como poesia séria. a-
prendeu a lição. vai dormir como um
poeta. acordar como um poeta. tomar
banho como um poeta. se masturbar
como um poeta. cagar como um poeta e
adorar ser chamado de poeta pelo porteiro
do seu prédio, que nunca leu seus
“poemas”, mas viu sua foto no jornal.
acha que basta ler baudelaire para perder
a risível auréola. não conversa em
mesa de bar. dá entrevistas, ou, de preferência,
faz palestras transdisciplinares.
não faz mais diferença entre esquerda e
direita e viaja tranquilamente no dia das
eleições. acha que todos os discursos
politicamente corretos são corretos. como
a maioria dos amigos politicamente
corretos, defende as minorias porque a
maioria dos amigos politicamente corretos
se consideram minorias. acredita que
a margem é a margem e o centro é o
centro. acredita em papai noel. acha que
tudo o que é natural é bom e nem desconfia
que tudo o que chama de nature-
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